Palco de disputas entre indígenas e produtores, as terras da região Sul do Estado colocaram em lados opostos vítimas do mesmo problema, garante o proprietário da Fazenda São Luiz, em Paranhos, Fermino Aurélio Escobar, de 78 anos. A verdadeira raiz dos conflitos no campo, para o produtor, está na falta de vontade política dos governos estadual e federal.
“Somos todos vítimas da falta de interesse das autoridades em colocar em prática ações de responsabilidade social. Tanto indígenas quanto produtores saem perdendo com esses conflitos, que só geram prejuízo ao Estado. Com uma política mais séria nessa área, todos teriam seus direitos respeitados e sairiam ganhando”, desabafa.
Cerca de 80 indígenas da etnia Guarani Kaiowá estão isolados há mais de 30 dias na São Luiz, em Paranhos (469 quilômetros de Campo Grande), fronteira com o Paraguai. A fazenda – ao lado de outras propriedades - faz parte de uma área considerada por eles YPo´i, ou seja, de ocupação tradicional. Os indígenas querem a demarcação imediata.
Requeridas em 1890, as terras que formam a Fazenda São Luiz foram escrituradas em 1902. “Em 1953 meu pai dividiu a propriedade entre 19 irmãos. Fiquei com 217 hectares e tive privilégio de comprar as áreas de 8 irmãos e constituir uma área um pouco maior. Nasci nessa propriedade e morei até lá até o dia da invasão”, relembra o produtor.
De acordo com relato de um dos líderes dos Guarani Kaiowá ao Ministério Público Federal, a alimentação do grupo, baseada na caça, não é suficiente, afetando idosos, mulheres e crianças. Apesar da situação crítica, afirmou que os todos estão determinados a permanecer e que a comunidade “não suporta mais aguardar as promessas vazias e a lentidão da Justiça do homem branco. Por ali ser seu Tekohá, ali permanecerão, custe o que custar, mesmo que ali tenham que ser sepultados”.
A área em que os indígenas estão, segundo o proprietário da São Luiz, faz parte da uma área de reserva legal mantida na propriedade. “Como nunca tivemos armas e seguranças na fazenda e a área de reserva é grande, com abundância de água, eles decidiram invadir. Talvez nem fosse a área pretendida, mas com certeza foi a mais viável. Concordo que os indígenas que lá estão busquem e tenham respeitados seus direitos. Aliás, espero que os direitos de todos sejam respeitados. Os dois lados estão sendo lesados”, comentou Fermino Escobar.
Segundo ele, em fevereiro, quando o Governo Federal anunciou o projeto de comprar terras na região para demarcar territórios indígenas, a fazenda foi colocada à disposição, enquanto vizinhos eram contrários à medida. “Basta querer fazer para resolver o problema. Até agora nada foi feito. É injusto alguns pagarem pela falta de interesse de quem deveria resolver a questão”, expressou o proprietário.
Uma ação de reintegração de posse da área ocupada pelos indígenas já foi impetrada. A Justiça determinou audiência de justificação de posse para 20 de outubro.
Fermino Escobar diz que seu sonho era deixar a fazenda para os netos e bisnetos. “A pior coisa do mundo é quando você se sente impotente e é obrigado a permitir que as pessoas entrem na sua casa. Temos de provar o direito sobre a área, apesar dos direitos legítimos dos indígenas. Espero que a Justiça seja feita para todos. E espero que seja rápido, porque não sei se vou durar muito para ver. Acredito mais na Justiça Divina”, finaliza.
Mortes – Os conflitos entre proprietários de fazendas em Paranhos e indígenas que habitavam a aldeia Pirajuí já resultaram na morte de duas pessoas em outubro do ano passado.
Os professores indígenas Genivaldo Vera e Rolindo Vera desapareceram após se envolverem em um conflito com homens armados durante um conflito na região. O corpo de Genivaldo foi localizado em um córrego. A cabeça estava raspada e ele estava coberto de ferimentos. Rolindo até hoje não foi localizado.
Em novembro do ano passado, a Anistia Internacional enviou um comunicado aos governos brasileiro e paraguaio pedindo que fossem redobrados os esforços nas buscas por Rolindo Vera. O caso era investigado pela PF (Polícia Federal) de Naviraí, mas até hoje ninguém foi indiciado.